Uma análise técnica sobre como a modelação espacial e o Método de Análise Hierárquica (AHP) são ferramentas cruciais para o ordenamento territorial e a mitigação de riscos em Moçambique.
Por Equipa RC Consultor
Em Moçambique, a gestão do território enfrenta um desafio constante: a vulnerabilidade climática. A nossa localização geográfica e as características das nossas bacias hidrográficas exigem mais do que medidas reativas; exigem planeamento baseado em evidência científica robusta.
Na RC Consultor, defendemos que a consultoria ambiental e o desenvolvimento sustentável devem alicerçar-se em dados precisos. O recente estudo sobre o mapeamento de riscos de inundações no Distrito de Cuamba, Província do Niassa, serve como um excelente estudo de caso sobre como a tecnologia pode salvar vidas e proteger infraestruturas.
Este artigo explora a aplicação de Geotecnologias e do Método de Análise Hierárquica (AHP) na identificação de zonas críticas, oferecendo uma visão técnica sobre os desafios e soluções para a bacia do Lúrio.
O Contexto: A Vulnerabilidade Hidrológica de Cuamba
O Distrito de Cuamba, situado na parte sul do Niassa, é atravessado por cursos de água vitais, como os rios Muandá e Namutimbua, integrantes da Bacia Hidrográfica do Lúrio. No entanto, a topografia da região, combinada com a ocupação humana em zonas de planície aluvionar, tem resultado em inundações cíclicas que afetam comunidades, agricultura e infraestruturas.
Historicamente, eventos observados em 2008, 2015, 2019 e 2023 demonstraram a necessidade urgente de delimitar, com precisão científica, as áreas de perigo. A ocupação desordenada dos leitos de cheia não é apenas um problema de planeamento urbano; é um risco direto à segurança alimentar e ao desenvolvimento rural da região.
Metodologia: Rigor Científico na Análise de Risco
Para ultrapassar a análise puramente empírica, a abordagem técnica destacada neste estudo combinou dois pilares fundamentais da análise espacial moderna, metodologias que a RC Consultor valoriza nos seus estudos de impacto ambiental:
1. Geotecnologias e Deteção Remota
Foi realizado o georreferenciamento preciso das manchas de inundação históricas, utilizando recetores GPS de alta precisão e imagens de satélite (Landsat 8). O processamento destes dados em ambiente SIG (Sistemas de Informação Geográfica), especificamente através do ArcGIS 10.5, permitiu criar uma representação digital fiel do terreno.

2. O Método de Análise Hierárquica (AHP) de Saaty
Para modelar o risco, não basta saber onde a água chegou; é preciso entender porquê. Utilizando o método desenvolvido por Thomas Saaty, foi criada uma matriz de decisão que atribuiu pesos estatísticos a quatro factores naturais determinantes:
- Declividade (Relevo): Identificado como o factor de maior peso. Áreas planas facilitam a acumulação de água e dificultam a drenagem.
- Altitude: Cotas mais baixas apresentam naturalmente maior suscetibilidade.
- Uso e Cobertura do Solo: A urbanização e a agricultura intensiva aumentam a impermeabilização, acelerando o escoamento superficial.
- Tipo de Solo: Solos com menor capacidade de infiltração contribuem para a saturação rápida do terreno.
Diagnóstico: A Realidade dos Números
A aplicação deste modelo matemático ao território de Cuamba revelou dados cruciais para qualquer gestor ou decisor político. O mapeamento cobriu uma extensão de 5.634,27 km², apresentando resultados que exigem atenção:
- Abrangência do Risco: Cerca de 97,96% da área total do distrito apresenta algum nível de suscetibilidade a inundações (Baixo, Médio ou Alto).
- Zonas de Risco Moderado: Dominam a paisagem, ocupando cerca de 39,71% do território (2.181,17 km²).
- O Caso Crítico da Cidade de Cuamba: Localizada no Posto Administrativo de Cuamba-Sede, a cidade encontra-se numa zona onde 75,68% do território é classificado como risco moderado.
- Altos Riscos: O Posto Administrativo de Cuamba-Sede concentra a maior área de “Alto Risco” (20,37% da sua área), devido à baixa declividade nas zonas de confluência dos rios.
Em contraste, o Posto Administrativo de Etatara apresenta a menor exposição a áreas de alto risco (3,65%), sugerindo condições geográficas mais favoráveis para certos tipos de infraestruturas.
A Perspetiva da RC Consultor: Do Dado à Solução
Na RC Consultor, interpretamos estes dados como um mapa para a ação. A identificação de áreas de risco não serve apenas para “alertar”, serve para planear.
A nossa experiência em consultoria ambiental e desenvolvimento rural em Moçambique dita que estes mapas devem ser a base para:
- Reordenamento Territorial: Impedir a expansão urbana para as áreas identificadas a vermelho (Alto Risco) e criar zonas de proteção ambiental nessas faixas.
- Agricultura Resiliente: Nas zonas de risco moderado, promover culturas adaptadas a solos hidromórficos e técnicas de drenagem agrícola eficiente, evitando a perda de colheitas.
- Infraestruturas Inteligentes: Projetar estradas e pontes considerando as cotas de cheia máximas modeladas, garantindo a durabilidade do investimento público e privado.
- Sistemas de Aviso Prévio: Utilizar os pontos críticos mapeados para instalar réguas limnimétricas e envolver as comunidades locais na monitorização.
Conclusão
A gestão de riscos de desastres naturais em Moçambique não pode ser feita com base na intuição. O caso de Cuamba demonstra que a combinação de Geotecnologias com métodos de apoio à decisão multicritério (como o AHP) oferece a precisão necessária para salvaguardar vidas e investimentos.
Como consultores comprometidos com o desenvolvimento sustentável de Moçambique, a nossa missão é transformar esta complexidade técnica em estratégias práticas e implementáveis no terreno. Seja para um estudo de impacto ambiental, para um projeto agrícola ou para o planeamento de infraestruturas, a ciência deve ser sempre a nossa bússola.
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